A terra da rainha imortal: Capítulo 10 - A portadora dos sonhos
Arthur sonhava com o tempo, e com os dias iguais. O que outros viam como paz, ele enxergava como uma fria realidade. Inquieto, tinha a impressão de estar voando sobre a capital, acima do castelo da rainha, no exato momento em que viu a movimentação originada pelo assassinato brutal daquele homem, no beco próximo à “casa de Berelith”. Ele se enxergou no meio da multidão. Observou-se com cuidado, e lembrou-se do pensamento que surgiu em sua cabeça quando leu a mensagem marcada com sangue na parede. Sabia que aquelas palavras se referiam a Archibald Wellnam, pois os dizeres mencionavam um cavaleiro negro de armadura branca, que espalhava mensagens cheias de nada. Em sua opinião, o cavaleiro tinha segredos. Lembrou-se da conversa que bisbilhotou quando criança, e do medo que sentiu quando o mascarado ameaçou o seu pai.
Ele se distraiu tanto com esses pensamentos que não percebeu que não mais voava, e tampouco estava perto do castelo. Viu-se sentado em uma cadeira, dentro de um quarto iluminado somente por algumas velas. Estava sentado defronte a uma escrivaninha com papeis empilhados. Confuso, olhou ao seu redor, e viu uma cama na parede oposta a da mesa próxima a ele. Uma senhora, com um grande vestido branco, estava sentada na cama, com as pernas esticadas, e costas repousando na cabeceira. Mesmo sem ver seus olhos, Arthur sentia o pesado olhar da mulher, que exibia um sorriso de canto de boca.
Ele se levantou e tentou se aproximar da cama a fim de ver o rosto da senhora, mas esta levantou um dos seus braços que repousavam nas suas pernas, e apontou a palma da mão para Arthur, enquanto o risinho esvaia-se. Ele estava paralisado. A senhora disse:
- Você, garoto, deve ser o único ser sem fé em todo o reinado, e, ironicamente, essa peculiar característica deve lhe ser extremamente útil, já que esteve certo todo o tempo. Sua alma é rara, e ao mesmo tempo é um sinal de que conseguirá suceder onde alguns falharam de forma retumbante. Seu vinculo é fraco, e essa é a sua arma. Use-a sem limitações. Agora desperte!
Arthur acordou assustado quando o sol nascia. Havia dormido satisfatoriamente, levando em conta os acontecimentos incomuns da noite passada. Ele foi salvo por uma criatura que se autodenominava “meio-dragão”, cujo nome era Helphelar. Por sua causa, um dos grandes oficiais da guarda estava morto, e sabia que esse fato iria reverberar em muito pouco tempo. Levantou-se, tomou um banho, vestiu sua leve armadura de couro, embainhou suas espadas e deixou a sua casa. Tinha negócios a tratar com o seu mais novo e inusitado amigo.
Saiu da sua casa e seguiu, a cavalo, em direção à Estalagem dos Nobres, uma das mais caras da cidade, para encontrar com a besta que salvou a sua vida. No caminho tentou imaginar o porquê de Helphelar querer o ajudar. Ainda não confiava nele, embora fosse obrigado a depender do monstro por causa do assassinato que fora cúmplice. Sabia também que, de alguma forma, a criatura não queria se mostrar para o mundo. Chegando ao estabelecimento, cumprimentou a bonita recepcionista, que o conhecia, e perguntou cordialmente por Norian, alegando o desejo de interrogá-lo por ser testemunha de um pequeno caso de roubo nas proximidades. Arthur bateu na porta com relativa suavidade, e após um minuto, esta se abriu, revelando um homem desconhecido, que abriu um pequeno sorriso, e disse:
- Entre, jovem soldado.
Ao entrar no quarto, o capitão com uma bela moça amarrada e amordaçada, jogada na cama. Ela o olhou de forma amedrontada, e pequenas lágrimas começavam a dar as caras. Arthur, sem falar uma palavra, fuzilou Helphelar com um olhar bravo. O “homem” disse friamente:
- Ela viu o que aconteceu.
O capitão olhou para a jovem e suspirou descontente. Ele tirou as mordaças da mulher, desembainhou uma das suas espadas, causando um momentâneo desespero na prisioneira, e contou as cordas que prendiam os seus pés e mãos. A menina, que tremia e soluçava, agarrou o braço de Arthur, puxando-o para a sua frente, e colocando o capitão entre ela e Helphelar. A moça aos poucos ficava mais calma, e Arthur perguntou:
- Qual é o seu nome?
- Sam – sua fala foi interrompida por um dos recorrentes soluços – Samara! – Disse a jovem, conseguindo retomar o controle.
- Fique calma, não vamos te machucar. Aliás, eu não vou te machucar mais do que você já foi. – Arthur olhou para o homem, que quase gargalhava da situação - Agora me conte sem pressa o que aconteceu desde o início.










